Bienal Sesc Video Brasil destaca a produção artística de povos indígenas

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    Bienal apresenta relevantes obras de artistas indígenas e povos originários de diversas regiões do mundo.

    A presença indígena no circuito contemporâneo vem ganhando amplitude e relevância, a exemplo do que já acontece em países como Canadá e Austrália, com expansão das formas de expressão, das pinturas e desenhos aos vídeos e fotografias; das instalações e performances aos jogos e aplicativos.

    Um mostra desta intensa produção, principalmente em vídeo, faz parte da 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil | Comunidades Imaginadas, que abre em 9 de outubro, no Sesc 24 de Maio, em São Paulo, com obras de artistas indígenas e de povos originários do Brasil, Estados Unidos, Canadá, México, Peru e Nova Zelândia.

    “Não somos mais nós que nos anunciamos para eles, mas eles que se enunciam – para eles mesmos, e, às vezes, também, para nós”, afirma Gabriel Bogossian, um dos curadores. Em tempos de debates pungentes sobre a Amazônia, alguns desses artistas nos convidam a refletir sobre pertencimento, identidade e as relações entre tempo, espaço e natureza. Entre as obras selecionadas para esta edição da Bienal, destaque para:

    Alto Amazonas Audiovisual

    Tríptico dividido em três curtas complementares. O objetivo do documentário não é somente denunciar situações opressivas ou vislumbres exóticos, mas também pensar em como tais curtas se entrelaçam, principalmente na complementariedade que não é audível nem visível.

    Por exemplo, estariam antropólogos e cineastas, ao prepararem suas obras, tentando afetar corpos e transformar seu estado de espírito, assim como fazem os curandeiros e pajés?

    Alberto Guarani (oriundo da etnia Guarani Nhandewa)

    Realizado em cinco aldeias Guarani do estado Rio de Janeiro, o filme mostra como os membros mais velhos e lideranças dessas comunidades fazem circular o conhecimento e a memória nos Tekoa através de suas rezas, narrativas e rituais religiosos por gerações a fio. Assim, a obra compõe um retrato etnográfico baseado num olhar intimista e solidário.

    Brett Graham (Dos povos Maoris da Nova Zelândia)

    A obra remete ao Pai Mārire, movimento sincrético entre a religião tradicional Maori e o cristianismo, surgido na Nova Zelândia no final do século XIX e que teve papel importante na resistência dos povos nativos frente aos invasores europeus.

    As duas torres que compõem a instalação são reminiscências dos obeliscos erguidos em Petane e Ōmarunui em 1916 pelos veteranos da “guerra de um dia”.

    Revestidos de madeira, lembrando as casas do período, os monumentos à paz e ao mal são propositalmente semelhantes, refletindo como as dicotomias frequentemente parecem as mesmas dependendo da perspectiva de quem emite o juízo de valor.

    Claudia Martinez Garay (Peru)

    O título da obra grafado em mochica, uma das muitas línguas nativas faladas atualmente no Peru, pode ser traduzido como “Eu sobreviverei a você”. A civilização moche, famosa pela cerâmica, desenvolveu-se naquele território desde a antiguidade até aproximadamente o século VII d.C., e seu idioma tinha presença importante no Império Inca à época da invasão espanhola.

    Partindo da crença moche na vida após a morte e de uma figura humana presente em um artefato dessa cultura exposto no Museu Etnológico de Berlim, a artista ficcionaliza uma linha do tempo, que abrange desde sua infância até seu encarceramento simbólico na instituição berlinense.

    Jim Denomie (Da população Sioux de Dakota do Norte, EUA)

    Em 2016, moradores da Reserva Indígena Standing Rock, nos Estados Unidos, organizaram protestos contra a construção de um duto de petróleo que atravessaria a área, cortando o rio Missouri.

    Tendo como foco a proteção da água do rio, o acampamento da manifestação, que durou meses e chegou a ter seis mil pessoas, foi duramente reprimido, com uso de gás lacrimogênio, cães de ataque e canhões de água (inclusive durante as baixas temperaturas do inverno).

    Na pintura, esse cenário é reconstruído com uma composição boschiana de helicópteros, hienas, cães de duas cabeças, um Donald Trump assediando a Justiça e outros elementos que, entre o realismo e a fantasia, acumulam pequenas alegorias de uma situação marcada pela crueldade da repressão e pela persistência de quem resiste.

    Noé Martinez (México)

    A interrupção do sonho surge como uma investigação de documentos indígenas coloniais do século XVI em Michoacán, com os atuais Purepechas que habitam esse estado no México. O vídeo surge do trabalho realizado na comunidade de Cherán, que conquistou sua autonomia em 2011, depois de se levantar e expulsar traficantes de drogas e partidos políticos de seu território.

    Em meio a máscaras, música, procissões e rituais, a peça narra a mudança dos 12 conselheiros (keris) que compõem o Conselho Maior do Governo Comunal, corpo coletivo de poder de Cherán. O espectador encontra uma nova dimensão simbólica da representação política do coração dos movimentos sociais indígenas do México.

    21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil | Comunidades Imaginadas

    A 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil | Comunidades Imaginadas será realizada de 9 de outubro de 2019 a 2 de fevereiro de 2020, no Sesc 24 de Maio, em São Paulo, reunindo mais de 60 obras, com 55 artistas de 28 países, entre vídeos, pinturas, fotografias e instalações.

    Juntos, a diretora artística Solange Farkas, o trio de curadores Gabriel Bogossian, Luisa Duarte e Miguel López e os membros do júri de seleção Alejandra Hernández Muñoz, Juliana Gontijo e Raphael Fonseca analisaram 2.280 inscrições, de 105 nacionalidades para selecionar obras advindas do Brasil, América Latina, África, Ásia, Oriente Médio e Oceania.

    O título-tema Comunidades Imaginadas, emprestado do estudo de Benedict Anderson, refere-se aos diversos tipos de organização social e comunitária que existem às margens dos Estados-nação como comunidades indígenas, religiosas, de refugiados, organizações em defesa pela liberdade sexual e de pensamento, entre tantas outras que estarão presentes nesta edição.

    Serviço:

    21a Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil | Comunidades Imaginadas

    Abertura: 9 de outubro, quarta-feira, às 19h

    De 9 de outubro de 2019 a 2 de fevereiro de 2020

    De terça a sábado, das 9h às 21h; domingos e feriados, das 9h às 18h

    Sesc 24 de Maio – Rua 24 de Maio, 109, Centro, São Paulo, 300m do metrô República

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