Instituto Mamirauá realiza atividades contra a caça do peixe-boi-amazônico 

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    Com o objetivo de envolver a população na conservação da espécie, aulas e práticas aconteceram em comunidade da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, na Amazônia Central

    A gestação do peixe-boi amazônico (Trichechus inunguis) pode durar 13 meses e a amamentação do filhote, dois anos. Isso significa que apenas depois de três anos do início de uma gestação, uma peixe-boi fêmea poderá ter outro filhote.

    Esse é um dos fatores que tornam a caça de subsistência um risco à espécie, atualmente considerada vulnerável à extinção. Para conscientizar a população sobre a ameaça, no dia 27 de setembro pesquisadores do Instituto Mamirauá visitaram a comunidade Belo Monte, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, no estado do Amazonas, para realizar práticas de educação ambiental.

    As atividades foram coordenadas pela pesquisadora Hilda Chávez, do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá, organização social fomentada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

    A proposta da visita foi apresentar informações sobre a espécie e envolver comunitários, em especial as crianças, em atividades lúdicas que alertassem sobre a importância da conservação do peixe-boi amazônico e o risco da caça.

    Depois de uma conversa com as crianças da comunidade, uma gincana foi proposta, seguida por um teatro de fantoches onde a peixe-boi chamada de Fofa tem sua filhote, Pretinha, presa na malhadeira de um pescador. A história tem um final feliz quando o pescador decide libertar pretinha para que ela encontre sua mãe.

    “Foi uma atividade muito importante e legal. As crianças gostaram muito das atividades e prestaram atenção. Muitas das crianças que participaram das práticas na parte da manhã também voltaram à tarde”, define Hilda.

    A caça

    O peixe-boi-amazônico é um dos cinco tipos de mamíferos aquáticos presentes na bacia amazônica, que também abriga os botos-cor-de-rosa, tucuxis, lontras e ariranhas. A espécie pode atingir três metros de comprimento e pesar 450 quilos.

    Apesar de proibida desde 1967, a caça do peixe-boi amazônico é uma prática tradicional em áreas afastadas de centros urbanos da Amazônia. A carne é muito apreciada na região. Um estudo recente apontou que de janeiro de 2017 a abril de 2019 ocorreram pelo menos 95 eventos de caça à espécie nas reservas de desenvolvimento sustentável Mamirauá e Amanã, na região do Médio Solimões, na Amazônia Central.

    O resultado foi obtido a partir de relatos de pescadores e agentes ambientais voluntários atuantes nas reservas. O número de animais mortos pode ser ainda maior, já que é provável que tenham ocorrido eventos de caça não declarados.

    É comum que filhotes emalhados nas redes de pesca sejam utilizados para atrair a as fêmeas lactantes e quando os filhotes e fêmeas são retirados do ambiente, o ciclo reprodutivo da espécie é mais abalado e, consequentemente, o risco à espécie aumenta.

    De acordo com Hilda, os relatos dos comunitários dos últimos dois anos podem indicar um crescimento populacional do peixe-boi-amazônico na área. “Em 2017 eles relatavam que era muito difícil encontrar, em 2018 já falavam que estava tendo mais peixe-boi e agora, em 2019, ainda mais”, diz.

    A preocupação é que a maior quantidade de espécimes nos rios e lagos possam eventualmente implicar em um aumento da caça. “A sensibilização é muito importante e mostrar o conhecimento da biologia, ecologia e distribuição do peixe-boi e adicionar isso ao conhecimento tradicional que eles já tem. Juntos o conhecimento tradicional e científico fazem com que a conservação da espécie seja mais efetiva”, afirma a pesquisadora.