A descoberta dos sete tamanduás-anões

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O Cyclopes didactylus. Foto: Divulgação.

O Cyclopes didactylus. Foto: Divulgação.

Manaus, AM — Até agora, se imaginava que uma única espécie tamanduaí Cyclopes didactylus se espalhava desde a América Central ao Sul da Amazônia, além de uma pequena parte do litoral Nordestino. Mas um estudo realizado por brasileiro, ao longo de dez anos, demonstra que existem sete espécies diferentes de tamanduaís. Duas delas restritas a regiões muito afetadas pelo desmatamento.

O bicho é o menor entre os tamanduás e também o mais discreto. Não ostenta a cauda majestosa do primo grandalhão e é bem menor do que o tamanduá-mirim, que pode ser visto no chão ou nas árvores. Come insetos, como os outros, mas prefere fincar seus pés redondos (que inspiraram o nome científico) nos galhos das árvores, onde se prende usando a longa cauda preênsil. Mas agora se sabe a América Latina não apenas um tamanduaí, mas vários.

“Existem diferenças de coloração, coloração dos membros anteriores e posteriores, do dorso”, afirma a veterinária Flávia Miranda, autora principal do artigo, publicado nesta segunda-feira (11), no Zoological Journal of the Linnean Society. “Alguns têm presença de faixa ventral e outros não. E alguns têm diferenças de caracteres, que a gente chama de caracteres discretos, com o crânio um pouco mais arredondados”, completa.

O Cyclopes didactylus, que já era conhecida, se distribui desde do Norte da América do Sul até o Nordeste Brasileiro. Os estudos revelaram que três subespécies já conhecidas do animal na verdade podem ser consideradas espécies diferentes: Cyclopes ida – do norte do Rio Amazonas e margem esquerda do Rio Negro; Cyclopes dorsalis, da América Central e Costa Pacífica do Norte da América do Sul; Cyclopes catellus, das Yungas, floresta das encostas do Andes oriental da Bolívia.

Outras três espécies foram descritas como novas, incluindo o tamanduaí de Tomas (C thomasi), em homenagem a Oldfield Thomas, um naturalista britânico que descreveu mais de duas mil espécies. As outras duas espécies são encontradas em regiões afetadas pelo desmatamento e mineração, o Cyclopes xinguensis, da região do Rio Xingu, e o Cyclopes rufus, que possui uma coloração avermelhada e foi registrado no interflúvio Madeira-Purus, entre Rondônia e o Sul do Amazonas.

“A gente ainda precisa fazer uma avaliação, mas pela degradação ambiental, pelo tamanho da área (que ocorrem), me parece que ali é problemático”, afirma Flávia Miranda. Pode ser que algumas espécies já nasçam ameaçadas de extinção”, completa a pesquisadora, presidente do Instituto de Pesquisa e Conservação de Tamanduás, ou Projeto Tamanduá, uma organização não governamental que atua na pesquisa e conservação de tamanduás, preguiças e tatus.

Dez anos de estudos

O Cyclopes didactylus sendo medido. Foto: Divulgação.

Cyclopes didactylus sendo medido. Foto: Divulgação.

A pesquisa com os tamanduaís começou há mais de dez anos, quando Flávia Miranda recebeu a missão de levantar a situação da espécie de uma população que vive em um ambiente separado da Amazônia, no litoral Nordestino, que vai do Rio Grande do Norte a Foz do São Francisco. Durante o trabalho, ela formou uma rede de informações, de onde recebia imagens de animais resgatados ou encontrados em Centro de Triagem ou Unidades de Conservação.

“Quando eu comecei a ver que tinha uma diferença morfológica, de coloração diferente, alguns animais tinham uma lista no ventre, outros não tinham. Aí surgiu a hipótese mesmo dessa população da Mata Atlântica ser uma nova espécie, ser uma coisa diferente da Amazônia.

Além de descobrir que os tamanduaís ocupavam uma área maior do que se pensava no Nordeste, ela encontrou uma população da espécie ainda desconhecida, no Delta do Parnaíba (Piauí), uma ponte genética que liga as populações nordestinas e amazônicas da espécie.

Estudos genéticos realizados com o professor Fabrício Rodrigues, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ajudaram a derrubar a hipótese de uma espécie diferente no Nordeste. Apesar de diferenças entre essa população e outros tamanduaís, elas não foram suficientes para os pesquisadores apresentarem mais uma espécie.

“Nós fomos conservadores em manter como uma coisa só”, explica Flávia. “Ela já tem uma divergência de 2 milhões de ano. Não é uma espécie, mas está especiando (se diferenciando evolutivamente). Só que a gente não encontrou diferença morfológica nela, então nós fomos conservadores em manter uma coisa só. Mas os estudos continuam”, completa.

Ela continuou a investigar as diferenças entre os tamanduaís de várias regiões. Flávia visitou museus naturais na Europa, Estados Unidos e América Latina. Mediu crânios, procurou diferenças. Foram realizadas também análises genéticas. Mas era um trabalho que exigia um mergulho mais profundo na floresta.

Foram 19 expedições à Amazônia ao longo de dez anos. “Rodei a Amazônia inteira para coletar esse material, e quatro anos aqui direto na universidade, com um grupo de pesquisadores, analisando exaustivamente esses dados. A gente teve bastante cautela para soltar esse artigo, por ser surpreendente, mesmo”, conta a pesquisadora.

Foto: Divulgação.

Foto: Divulgação.

Saiba Mais

Taxonomic review of the genus Cyclopes Gray, 1821 (Xenarthra: Pilosa), with the revalidation and description of new species“, Flávia R Miranda  Daniel M Casali  Fernando A Perini  Fabio A Machado Fabrício R Santos.

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